Editorial

Misoginia disfarçada

“Você é a pior repórter”, disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a pergunta da jornalista Kaitlan Collins, da CNN, durante uma coletiva de imprensa, após ser questiona-do sobre o caso Jeffrey Epstein e a divulgação de documentos relacionados às vítimas do financista. Em seguida, comentou a aparência da jornalista: “Uma mulher jovem. Acho que nunca te vi sorrir. Conheço você há 10 anos. Acho que nunca vi um sorriso no seu rosto”.
“Sávio é assim, acordou meio de ‘Chico’,” disse o jogador de futebol Neymar, dando sua risada característica após a declaração, no jogo do Santos contra o Remo, após o atleta levar um cartão amarelo do juiz Savio Pereira Sampaio na partida contra o Remo. “De Chico” é uma expressão pejorativa para se referir à menstruação. É usada de forma depreciativa porque é derivada de chiqueiro, ou seja, algo sujo, e faz referência a uma época em que a menstruação era frequentemente relacionada à sujeira. O termo também é usado, de maneira depreciativa, para classificar alguém que possa estar sob o domínio de hormônios femininos descontrolados.
“Você não tem o que fazer, minha filha? Vá lavar roupa, costurar a calça do teu marido, a cueca dele (…) “Feia do capeta também, nossa senhora”, disse o apresentador de TV Carlos Roberto Massa, o Ratinho.
Diariamente, seja na mídia, nas redes sociais, ou simplesmente ao vivo, não há uma pessoa que não ouça, presencie ou seja a própria vítima de frases ou comentários com conteúdo misógino, muitas vezes disfarçado de piada.
No universo online a situação é ainda mais grave. O NetLab UFRJ identificou, em 2024, 137 canais de YouTube que veiculavam conteúdo com discurso de ódio, desprezo, aversão ou controle sobre as mulheres. Estes dados foram publicados no relatório “Aprenda A Evitar ‘Esse Tipo’ De Mulher”: Estratégias Discursivas e Monetização da Misoginia no Youtube. Em 2026, 123 deles seguem disponíveis na plataforma. Esses 123 canais somavam, em 2024, 19.505.210 inscritos. Hoje, acumulam mais de 23 milhões de inscritos. Ou seja, houve um crescimento de aproximadamente 18,55%, com 3.618.086 novos inscritos.
Atualmente, os canais somam 130 mil vídeos publicados – 25 mil vídeos a mais que o número de 2024, quando somavam 105 mil publicações. Vinte desses canais mudaram de nome desde então, e alguns tiraram referências à “machosfera” de seus títulos.
Conteúdos misóginos não são apenas opiniões, mas negócios lucrativos, com canais que vendem cursos e livros baseados na humilhação e controle feminino e eles se espalham e refletem nos comportamentos da vida real.
O Senado aprovou, recentemente, a inclusão da misoginia como crime de preconceito ou discriminação, tipificando-a como a conduta de ódio ou aversão às mulheres. O projeto, enviado para apreciação da Câmara dos Deputados, equipara o crime ao racismo e prevê penas de dois a cinco anos de reclusão, além de multa. A proposta gerou polêmica e muitos se posicionaram contra.
Porém, vale lembrar que o Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da última década. Foram 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024, quando houve 1.492 casos. Ainda que a proposta não seja totalmente adequada para combater a atual situação. O que poderia ser feito para reverter a situação? Posto que as políticas públicas adotadas até então têm se mostrado ineficientes?
A misoginia não está só concentrada no ódio e na promoção da violência direta, mas também nos sentimentos de desprezo e aversão, e na ideologia que parte do pressuposto de que as mulheres precisam ser subjugadas e inferiorizadas e, é preciso, urgentemente, dar um basta a isso.

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